Quando as luzes se apagam.
Numa casa aparentemente abandonada, vozes ecoam. As vozes recitam um cântico em latim, melódico e quase gutural. O canto ecoa como uma onda que evade a casa: “Inus! Vocco! Animas! Ad! Lucem!” Carlos aproxima-se calmamente, como se já conhecesse o local e as pessoas. Ele adentra a casa, senta-se ao lado da porta, numa cadeira de madeira, e então assiste.
No fundo da sala há uma mesa de madeira coberta com uma toalha branca. Velas brancas fazem a iluminação, enquanto seis pessoas, três de cada lado, cercam a mesa que serve de cama para uma mulher grávida e nua. A mulher se contorce com as dores das contrações uterinas, mas parece ter algo além, algo além da dor natural de um parto. Uma dor além do físico, capaz de causar desmaios recorrentes na mulher, que acorda apenas para lidar com mais sofrimento. Seu rosto está lavado em lágrimas, seus olhos estão vermelhos, sua voz está rouca, seus cabelos estão desgrenhados e úmidos de suor, assim como o resto de seu corpo. Os dedos de suas mãos estão cobertos com uma mistura de sangue seco e envelhecido com sangue recente, por arranhar a mesa de madeira, que está marcada por sangue e cavas. Braços e pernas permanecem soltos, porém a dor e o desespero são paralisantes.
Carlos puxa do bolso um maço de cigarros, acende um dos cigarros e devolve o maço ao bolso. Enquanto observa a cena, fumando calmamente, uma lágrima escorre por seu rosto, porém sua feição permanece blasé. O canto aumenta de velocidade, as vozes ressoam de forma sincrônica e hipnótica. Carlos sente como se a sala estivesse sendo preenchida com água. O ar parece denso, o som parece ecoar dentro de sua mente, fazendo-o perder o controle sobre os próprios pensamentos. Ele se sente enjoado, sente uma pressão em seu tórax e uma vontade desesperada de fugir. Ao tentar engolir saliva, sente como se houvesse uma pedra limitando sua garganta. Sua visão escurece lentamente, e Carlos se concentra em não desmaiar.
É então que a barriga da mulher grávida se torna iluminada. A mesma luz evade seu útero, saindo por sua vagina. A mulher acorda novamente, gritando porém sem voz; sua boca escancarada demonstra um sofrimento imensurável. Suas lágrimas secaram; agora apenas sangue evade seus olhos. Uma das figuras retira um punhal e ergue a faca na direção de Carlos, que se levanta com dificuldade enquanto respira como se faltasse ar no ambiente. Seu corpo parece pesar o dobro, suas pernas tremem, mas ele se mantém em direção. Assim que pega a adaga, ele apoia-se com a mão livre segurando-se na mesa e, com a outra mão, tenta fazer um corte horizontal na altura da cintura da mulher. Perto de desmaiar, ele segura seu braço com a mão livre para manter-la firme, enquanto a figura que lhe deu a adaga segura seu corpo pelo tórax, dando-lhe apoio. Carlos efetua o corte, e imediatamente uma luz ofuscante evade o corte. Carlos larga a adaga e desvia o rosto, enquanto enfia as mãos dentro da barriga da mulher e puxa um bebê incandescente, e todo o quarto é tomado por uma luz branca, logo lentamente vai perdendo força, enquanto o quarto vai voltando a penumbra de antes. todos caem de joelhos com seus olhos completamente brancos, menos Carlos. A mulher que deu a luz parece estar sem vida, o bebe olha atentamente para os olhos de Carlos, como se esperasse ouvir algo…
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